quarta-feira, janeiro 14, 2009

Crise e Despudor (2)

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O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS), organismo tutelado por Vieira da Silva, ministro do trabalho e solidariedade, detentor de activos destinados a assegurar o pagamento das pensões dos portugueses, sofreu, durante o ano de 2008, uma desvalorização (seria melhor dizer descapitalização) de 302 milhões de euros, decorrente dos imprudentes e lesivos investimentos que foram efectuados, em produtos financeiros de alto risco, entretanto afectados pela actual crise financeira internacional, ou ainda em entidades bancárias pouco respeitáveis, como é o caso do Banco Português de Negócios. Disse o jornal Correio da Manhã, na sua edição de 10 de Janeiro, que o valor das perdas daria para pagar uma reforma média de 415 euros a quase 52 mil pessoas, durante um ano.
Entretanto, chega-nos a notícia que os trabalhadores portugueses que se reformarem neste ano vão ver as suas pensões descerem 1,32 por cento devido à aplicação do factor de sustentabilidade (0,9868), ontem divulgado pelo Instituto da Segurança Social. Isto significa que, numa reforma de mil euros, serão menos 13,20 euros por mês e menos 184,80 euros por ano (as pensões são pagas 14 meses). Para quem tem uma reforma de 500 euros, pode contar com menos 6,60 euros por mês e menos 92,40 euros por ano. Quem quiser receber a sua reforma por inteiro terá que trabalhar para além dos 65 anos, sendo este expediente um forma encapotada de aumentar a idade de reforma dos trabalhadores, sem que o governo tenha que recorrer a outros procedimentos. Correm a dizer-nos que esta redução tem a ver com o aumento da esperança de vida dos portugueses, mas talvez fosse mais correcto acrescentar que os maus investimentos também corroeram os activos do fundo, afectando e encurtando a sustentabilidade do sistema, pelo que se tornou necessário proceder já às respectivas correcções. Como não há milagres, tempo virá em que, fatalmente, também virão a ser atingidas por reduções, as reformas anteriores a 2009. É talvez contando já com isso, que os gestores e altos quadros da administração pública, os quais, com grande antecipação se costumam precaver contra estes malefícios, têm garantido que as suas reformas sejam substancialmente reforçadas, levando a cabo promoções de última hora.
Resumindo: recorrer à “economia de casino” e usar o dinheiro dos actuais e futuros reformados portugueses, para jogar na bolsa e fazer apostas em produtos financeiros de índole especulativa, logo desaconselháveis, é também uma das formas com que este "socialismo moderno, moderado e popular" nos quer convencer, que zela escrupulosamente pelos nossos interesses.

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