sábado, janeiro 07, 2006

Santos e Pecadores


Já conhecíamos a veia polémica de Ribeiro e Castro, depois de aquele ter afirmado que o terrorismo era sempre induzido pelas ideologias de esquerda, mas agora a sua inspiração foi mais longe, descendo ao pormenor de afirmar que Ernesto “Che” Guevara foi, nem mais nem menos, um dos grandes assassinos do final do século XX.
A exibição de um raciocínio deste tipo exige sempre que invoquemos o seu contrário. Quando falamos do branco, logo o negro nos salta ao caminho. Quando ficamos cercados pelo frio, logo a languidez do calor vem disputar os recantos da nossa imaginação, ao passo que, ao conceito de grande molestador, bárbaro e genocida, contrapõe-se sempre a ideia de uma grande alma, casta, benfeitora e farta de pureza.
Nesta ordem de ideias e com tais rasgos de grande justiceiro, ao Castro apenas faltará mover as competentes influências, no sentido de serem iniciados os processos de beatificação, por manifestos actos de santidade e piedosa benemerência, de um punhado de figuras gradas do tal século XX, com quem a Humanidade se tem enternecido, e da qual é devedora, por ideias e actos redentores da “civilização”, entre as quais se incluem Adolfo Hitler, Francisco Franco, Suharto, Idi Amin Dada, Augusto Pinochet, Mobutu Seseseko, François Duvalier e Phol Pot, todos eles gente de primeira água, de uma lista bem mais extensa. Monstro, monstro, foi o tal carniceiro “Che”, e não os seus contrários, como os devotos Baptistas, Somozas, Videlas, Stroessneres e quejandos, todos homens de paz, progresso e prosperidade, cujo vermelho com que encharcaram os seus países, não era sangue, mas apenas umas torpes confusões de esquerdistas daltónicos.
Senhor de tais dotes de cruzado, fico a aguardar que o tal Castro se suplante a si próprio, não sem que vá deixando aqui uma advertência. Não basta considerá-lo apenas como mais um combatente doméstico do “eixo do mal”, um educador de pacotilha, uma anomalia ou um trágico cómico de serviço, porque haverá sempre quem o leve a sério. Basta recordar que o próprio Francisco Franco, à sombra de Guernica e dos pelotões de fuzilamento, se proclamava caudilho de Espanha “pela graça de Deus”, havendo muitos que acreditavam piamente nele, com os tenebrosos resultados que se conhecem.

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