domingo, novembro 06, 2011
A Criatividade Tributária
OS REEMBOLSOS de IRS vão deixar de ser automáticos, provavelmente com a economicista desculpa da simplificação e do corte nos procedimentos “supérfluos” do aparelho fiscal. Na verdade, não passa de uma versão lusitana da “Ilha do Tesouro”, uma imaginativa forma de o Estado se apropriar sem ruído dos reembolsos do IRS, pois serão os contribuintes que os têm que ir reclamar ao balcão das Finanças. Imaginem o que a medida implica de reforço de pessoal nos balcões de atendimento, das horas de trabalho perdidas aos contribuintes, e o mais grave de tudo, o quanto dinheiro a Direcção-Geral de Impostos vai abichar, a mando do Estado-salteador e das regras e condicionalismos impostos pelo legislador de serviço, à conta dos prazos excedidos, das nossas distrações e esquecimentos, extravios de correspondência, escassa mobilidade, falecimentos e outras ocorrências.
sábado, novembro 05, 2011
E os Portugueses, Pá?
Excerto
da entrevista concedida ao semanário EXPRESSO por António José Seguro, e
publicada na edição de 5 de Novembro de 2011.
EXPRESSO: - Um Orçamento de Estado (OE)
que o deixa em choque não justifica o voto contra?
António
José Seguro: -
Se estivesse em causa exclusivamente o OE, a minha proposta era que o PS
votasse contra. Mas o que está em causa é a viabilização da continuação de
Portugal na zona euro e a garantia de que continuará a receber os 78 mil
milhões de euros que pediu e que o próprio PS negociou. Distingo entre o
conteúdo do OE do sinal político que um partido responsável deve dar. O sinal
político da abstenção é para defender Portugal. Este não é o meu OE, mas
Portugal é o meu país e eu não volto as costas a Portugal.
(...)
Meu
comentário: Se o conteúdo do OE deixou António José Seguro escandalizado, por
atentar contra os portugueses, e se Portugal é o conjunto do povo português,
não se percebe como se pode defender o país deixando de fora o povo. O que
António José Seguro quer defender é um Portugal vazio.
quinta-feira, novembro 03, 2011
A Incómoda Democracia
AO CONVOCAR
tardiamente (com quase 2 anos de atraso) um referendo para que o povo decida se
quer manter o país subordinado às humilhantes condições de resgate que a “troika”
lhe tem vindo a impor, o governo grego, acossado e cercado, de um lado pelos
insaciáveis "mercados", pelo FMI, o BCE e a UE, e do outro, pelo seu
próprio povo, quer desresponsabilizar-se da situação de caos a que conduziu o
país, e chantageando os eleitores, transferir para a sociedade civil as
consequências da sua inépcia e obstinação.
Continuo
a não perceber como é que metade da dívida da Grécia pode ser perdoada, ao
passo que a sua totalidade não pode ser renegociada. Se ninguém me explicar
este paradoxo, creio que chegou a altura de dizermos basta, e começarmos a
partir a loiça!
Os políticos
andam com a boca permanentemente atulhada com a palavra Democracia, porém, como
afirmou Manuel António Pina, "o medo que esta gente tem da Democracia é
assustador". Apenas recorrem aos seus instrumentos quando se vêem
confrontados com situações-limite, como é agora o caso da Grécia, refém dos
“mercados” e dos seus comissários políticos instalados em Bruxelas e do
todo-poderoso eixo franco-alemão, os quais lhe estão a impor uma austeridade
sem limites, até ao seu empobrecimento e ruína generalizada. E o mesmo guião repete-se
por toda a União Europeia.
Ninguém perguntou aos povos se queriam aderir ao
projecto europeu. Ninguém perguntou aos povos se queriam aderir a uma moeda
única. Ninguém elegeu os tecno-burocratas que se pavoneiam por Bruxelas. Ninguém
perguntou aos povos se queriam subscrever o tratado de Nice, de Maastricht ou
de Lisboa, e assim sucessivamente, até ao estado actual de bagunça e desunião
em que a Europa se tornou, onde até já se falou em instituir um prodigioso
“imposto europeu”. Tudo foi sendo cozinhado, autoritária e impunemente, pelos
tecnocratas da financeirização das economias, à revelia dos povos que são
remetidos para um papel passivo, até que são confrontados com os factos
consumados, embrulhados na sempre eterna desculpa da crise internacional e dos
tempos difíceis. Para reparar o mal feito, são depois "convidados" a darem
as mãos, fazendo despertar o seu “patriotismo”, a mobilizar os seus
"deveres", aceitando a alienação dos seus "direitos", mais a
degradação das suas condições de vida e a privatização dos seus próprios
recursos.
quarta-feira, novembro 02, 2011
Quem vive muito acima das suas possibilidades é o Estado, a classe política, os gestores públicos
«A
mentira mais repetida na vida política portuguesa é a de que os portugueses
vivem acima das suas possibilidades, trabalham pouco, ganham demasiado e
deveriam poupar mais. Nada de mais errado: este conjunto de mitos constitui um
embuste. (...)»
(Continue
a ler este artigo no blog CARTÓRIO DO ESCREVINHADOR da autoria de Paulo Morais,
Professor Universitário, publicado no jornal CORREIO DA MANHÃ em 1 de Novembro
de 2011)
terça-feira, novembro 01, 2011
Registo para Memória Futura (54)
"O
plano de resgate europeu está a desmoronar-se mais depressa do que eu
pensava"
Afirmação do economista Paul Krugman, Pémio Nobel da Economia de 2008, confrontado com a subida das taxas de juros da dívida soberana italiana a 10 anos. O anúncio do referendo grego, sobre a aceitação ou não do segundo pacote de resgate, mesmo com 50% da anterior dívida perdoada, virá certamente acelerar este processo.
Afirmação do economista Paul Krugman, Pémio Nobel da Economia de 2008, confrontado com a subida das taxas de juros da dívida soberana italiana a 10 anos. O anúncio do referendo grego, sobre a aceitação ou não do segundo pacote de resgate, mesmo com 50% da anterior dívida perdoada, virá certamente acelerar este processo.
O Vendilhão de Notícias
JOÃO
MARCELINO é um nome a fixar. O sujeito podia ter qualquer outra ocupação menos
"mediática", mas calhou-nos em sorte que se tivesse tornado (ou o fizessem) director do DIÁRIO DE NOTÍCIAS, um matutino que se assume como um
jornal diário de referência. Entretanto, ao pontificar nos editoriais do dito, o que diz Marcelino? Diz, nada mais, nada menos, que considera perfeitamente
aceitável que os jornais "vendam" notícias "encomendadas", seja pelo governo, ou qualquer outra entidade.
É
assim uma coisa parecida com um juíz, que em vez de apurar a verdade e aplicar
a justiça, se disponha a "transaccionar" a sua competência, isenção e
o poder que a lei lhe confere, aceitando a incumbência de ocultar ou perverter
provas, a fim de evitar que a verdade se imponha, que um dado arguido seja
condenado, ou sequer se sente no banco dos réus. Ou então que um qualquer
presidente de câmara municipal, “venda” por bom preço os seus préstimos, ao
primeiro especulador imobiliário que o aborde, interessado numa significativa
alteração do Plano Director Municipal (PDM), a favor das suas conveniências.
Dizendo
Marcelino o que diz - e talvez aplicando-o na sua prática quotidiana, sempre
que lhe surge uma boa oportunidade - acaba por converter num mero pasquim,
aquilo que deveria ser um jornal. Quanto a ele, nunca atingirá o patamar de um
simples director, muito menos de um conceituado e respeitado director,
ficando-se por um banal vendilhão de balelas, com direito a ser citado pela
negativa, nos cursos superiores de comunicação.
domingo, outubro 30, 2011
Uma História Verídica e Exemplar
ERA
UMA VEZ um desempregado, com "curriculum vitae" publicado na
internet, e muitas dezenas de outros enviados para empresas que publicam
anúncios de oferta de emprego, possuidor de licenciatura e mestrado em gestão
de empresas, inscrito na Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas e na Ordem dos
Economistas. Um belo dia recebeu um telefonema de uma empresa que tinha
consultado o seu “curriculum” na internet, informando que estava à procura de
um colaborador, exactamente com o seu perfil e competências. Marcado o dia e
hora da entrevista, o candidato deslocou-se às instalações da empresa, e depois
de alguma conversa preparatória para "encher chouriços", com um
suposto director de recursos humanos, que fez questão de abordar temas como o
prestígio, a idoneidade, posição no mercado, volume de vendas e estatuto
empresarial, entrou em cena um novo protagonista, um auto-denominado
director-geral da dita, que informou o candidato que estava disposto a
admiti-lo, mas apenas nas seguintes condições:
1
- Não haveria lugar à celebração de qualquer espécie de contrato de trabalho;
2
- A sua retribuição mensal (vencimento mais subsídio de alimentação) seria
efectuada em numerário, isenta de contribuições e impostos legais, assim como
quem contrata um biscateiro canalizador ou assentador de tijolos;
3
- A empresa comprometia-se (apenas verbalmente, claro está!) a celebrar um
contrato de trabalho com o candidato, mas apenas no caso de vir a ser aprovada
pelo Governo a redução de Taxa Social Única (TSU), bem como o prometido
programa de incentivos para as empresas, que previa a concessão de subsídios,
durante seis meses, para quem contratasse trabalhadores há mais de 6 meses na
situação de desemprego;
Postas
estas inegociáveis condições, foi a vez do candidato questionar as suas
condições de trabalho, relacionadas com a função a desempenhar. Constatou que a
empresa possuía um sistema informático antiquado, software contabilístico a
roçar o obsoleto, e os lançamentos relativos às contas de 2011, paralisados
algures no primeiro trimestre. Entretanto, o anterior ocupante de tão sedutor
posto de trabalho, tinha-se despedido ao fim de um mês, e o lugar estava
desocupado já lá vão dois. Durante uma pausa da entrevista, alguém que passava
no corredor perguntou: “este já não é da Manpower, pois não?”, ao que alguém respondeu:
“não, não, chiu, fala mais baixo…”.
Interessante
é o facto de esta dita empresa, instalada num bairro chique de Lisboa, com a
tal implantação a nível nacional, tanto prestigio e os tão invejáveis créditos
firmados - dizem eles - apenas oferecer condições de trabalho mais que
precárias, melhor, clandestinas, razão porque não se arrisca a colocar o seu
anúncio de oferta de emprego, nos habituais meios disponíveis para o efeito,
recorrendo à "pesca à linha" e à “caça aos patos”, oferecendo o
"inexcedível" e "competitivo" contrato de prestação de
serviços atrás descrito, não trocando com os potenciais candidatos, uma única
linha escrita sobre o assunto, para não deixar rasto das suas iníquas intenções.
Como diria o senhor Holmes: “elementar, meu caro Watson, é o mercado de
trabalho em toda a sua exuberância!”.
A
coisa passou-se nos últimos dias de Setembro deste ano de 2011. É óbvio que o
candidato declinou a tentadora oferta.sábado, outubro 29, 2011
Benefícios e Malefícios
DEPOIS de terem andado a convencer-nos que
devíamos deixar o egoísta e poluidor transporte particular à porta de casa,
recorrendo aos transportes colectivos, e deles colhendo benefícios, tais como o
serem desconcentradores de tráfego e mais amigos do ambiente, o Governo decidiu
premiar a nossa adesão aos mesmos, retaliando com a redução das carreiras,
alargando a frequência daquelas e aumentando o preço das tarifas. Agora, para
que não vejamos a prometida luz ao fundo do túnel, o Metro de Lisboa, a mando
do Governo, está a estudar a possibilidade de encerrar a rede a partir das 23
horas, sendo que algumas estações poderão antecipar o encerramento para as 21h.
Bem pesados os malefícios destas medidas desincentivadoras, só há uma conclusão
a tirar: com amigos destes os portugueses não precisam de inimigos.
sexta-feira, outubro 28, 2011
Quem Tira aos Pobres…
EMBORA não seja crente, não sou indiferente ao que
postulam as encíclicas Rerum Novarum do papa Leão XIII, datada de 1891, a Mater
et Magistra de João XXIII, de 1961, e a Populorum Progressio de Paulo VI, de
1967. Entretanto, nos tempos que correm, ainda não ouvi ninguém dizer, com
indignação e veemência, que quem tira aos pobres ofende a Deus.
quinta-feira, outubro 27, 2011
Orfandade
ALGUÉM alguma vez viu, em algum lugar, ser criada uma MOEDA sem o suporte de um ESTADO? Não viu, nunca existiu, nem existirá, e o que actualmente existe com o nome de EURO está condenado a fracassar, por ter a pretenção de ser a moeda de uma desunião europeia. Toda a porta tem a sua casa, todo o ministro o seu governo e todo o comandante o seu navio, salvo os projectos surrealistas, as anedotas de salão e os navios-fantasma.
quarta-feira, outubro 26, 2011
Novos Tempos, Novas Teorias
PEDRO
Passos Coelho, durante uma conferência promovida pelo DIÁRIO ECONÓMICO, assegurou
que Portugal apenas pode sair da crise empobrecendo, tanto em termos relativos
como absolutos, paradoxo que contraria tudo o que se sabe sobre economia, isto
é, que apenas se conseguem ultrapassar as situações de crise económica, criando
riqueza, e não o seu contrário. Já Paulo Portas, durante uma sessão da Comissão
Parlamentar de Assuntos Europeus, vaticinou que os caminhos para a salvação do
país, estão repletos de sacrifícios e de dor, expressões que associadas ao
empobrecimento garantido por Passos Coelho, têm o seu quê de fatalismo bíblico.
Há
uns anos atrás fomos confrontados com uma doutrina muito querida a G.W.Bush,
que abrangendo aplicações desde a área militar até à àrea económica, dava pelo
nome de "destruição criativa", uma coisa com pretensões a ser um novo
paradigma civilizacional. Será que esta espécie de empobrecimento controlado de
Pedro Passos Coelho, no seguimento do que António José Seguro sugeriu, quando
disse que os portugueses deviam interiorizar a austeridade, isto é, aceitá-la
como um facto consumado e coisa sua, postura a que deu o bizarro nome de
"austeridade inteligente", tudo isto associado ao misticismo de Paulo
Portas, são caminhos convergentes para a versão lusitana de uma nova teoria
económica, ou será que tudo isto não passa de uma técnica para amedrontar os
portugueses, fazendo-os acreditar que são os principais culpados pelo
descalabro, e que todos vivemos afinal, sem decoro, numa riqueza faustosa?
Porque
é preciso manter a higiene em níveis aceitáveis, que tal aqueles senhores deixarem
de bolsar tantas obscenidades e provocações?
terça-feira, outubro 25, 2011
Uma Pergunta Inofensiva
A QUE
propósito e com que fundamento a Assembleia da República nomeou o deputado
Ricardo Rodrigues, para o
Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários, quando o dito cavalheiro, por
não poucas e gravosas razões - entre as quais o ser especialista em acções directas sobre bens alheios - é reconhecido como uma pessoa pouco recomendável?
sexta-feira, outubro 21, 2011
As sombras sortílegas
No caminho, assentou a canseira.
Nem vestígios das tuas pegadas.
Solitárias, as velhas estradas
sob um manto de sol e poeira.
Do
que foste ou não foste, não mais
a
memória guardou o registo.Neste Mundo de Cristo sem Cristo,
são de inércia e renúncia os sinais.
Sob
a noite, as estradas paradas,
rememoram
silêncios em guardae sortílegas sombras vadias...
São as horas, no tempo cansadas,
a velar a promessa que tarda
duma aurora que nunca verias...
José-Augusto de Carvalho
16 de Outubro de 2011.Viana * Évora * Portugal
quarta-feira, outubro 19, 2011
Pensões e Hotéis de 5 Estrelas
CONTRARIANDO
as palavras do ministro das Finanças Victor Gaspar, que disse durante a
apresentação do Orçamento de Estado para 2012 não haver grupo social que não
seja chamado a contribuir para este esforço, veio a ver-se, as pensões
vitalícias auferidas pelos antigos titulares de cargos políticos, não eram abrangidas
pelo esforço adicional de austeridade que, como se sabe, será exigido aos
funcionários públicos e pensionistas, como punição por serem os mais bem pagos
do país e andarem a gastar acima das suas possibilidades.
No
dia seguinte, confrontado com o abismo entre as palavras e os factos, o
ministro Victor Gaspar acabou por reconhecer que a coisa tem que ser corrigida,
adiantando mesmo que se irá mais longe, aplicando limitações ao escandaloso número
de pensões que os políticos podem acumular.
Eu
já estava preocupadíssimo e a questionar os meus botões, mas afinal, tanto Mário
Soares como Jorge Sampaio e Almeida Santos, entre muitos outros coleccionadores
de pensões vitalícias, já não estarão naquele desesperado estado de
necessidade, senão mesmo de indigência, em que eu os imaginava, ao ponto de
serem dispensados de contribuir com o seu quinhão para a superação da crise.
terça-feira, outubro 18, 2011
Registo para Memória Futura (53)
«Em
Portugal não existem indignados, apenas resignados.»
Declaração de um cidadão frente à
Assembleia da República, quando confrontado com a exígua presença de uma
vintena de resistentes da acção do dia 15 de Outubro.
segunda-feira, outubro 17, 2011
De Surpresa em Surpresa
ESTA
CAIXINHA de surpresas do défice das contas públicas é inesgotável. O problema poderia
ter sido resolvido com uma auditoria feita a tempo e horas, e de uma vez por
todas, mas assim dá muito mais jeito, com o aparecimento de buracos,
buraquinhos e buracões, a pedido e conforme as necessidades. Elas, as
surpresas, vão chegando em pequenas doses, pé-ante-pé, aos bochechos ou a
conta-gotas, para não provocarem sobressaltos ou reacções adversas, mas a
verdade é que todos os dias há uma nova surpresa. A mais recente, e mesmo em
cima da discussão do Orçamento de Estado para 2012, informa-nos que os cortes
dos subsídios de Natal e de férias a funcionários públicos e pensionistas que ganhem mais de mil euros não vão chegar para cobrir o buraco do Banco Português de Negócios (BPN), o tal que nas palavras do presciente, pretérito e lastimável ex-ministro Teixeira dos Santos, "praticamente não teria custos para os contribuintes". Entre a inexcedível capacidade de cálculo do senhor Teixeira dos Santos e as contas feitas às três pancadas pelo senhor Victor Gaspar, faltará qualquer coisa como uma bagatela de 150 milhões de euros que, ficamos já avisados, serão incluídos no próximo raide carteirista que o governo se proponha efectuar sobre os contribuintes.
Estou certo que havemos de voltar a ouvir falar do infindável caso do BPN. Já o mesmo não digo do exilado voluntário Manuel Dias Loureiro, calma e pacificamente aboletado em Cabo Verde, a aguardar pacientemente que o assunto caia no esquecimento, pois se até os inefáveis tribunais se consideraram incompetentes para julgar o caso...
Estou certo que havemos de voltar a ouvir falar do infindável caso do BPN. Já o mesmo não digo do exilado voluntário Manuel Dias Loureiro, calma e pacificamente aboletado em Cabo Verde, a aguardar pacientemente que o assunto caia no esquecimento, pois se até os inefáveis tribunais se consideraram incompetentes para julgar o caso...
domingo, outubro 16, 2011
Atordoar, Congelar e Extorquir
Artigo do economista Eugénio Rosa, publicado
em 14.10.2011. O título do post é de minha autoria.
Mais 7.000 milhões € de riqueza para os
patrões, nada para os trabalhadores, corte de 1.682 milhões € no rendimento dos
pensionistas e de 952 milhões € aos trabalhadores da função pública, mas os rendimentos
do capital continuam a ser poupados aos sacrificios: eis o que Passos Coelho
anunciou
Tal
como sucedeu com o subsidio do Natal em que praticamente os atingidos pelo IRS
extraordinário foram apenas os trabalhadores e pensionistas, que têm de pagar
ainda este ano mais 800 milhões € de IRS segundo as contas do próprio governo,
tendo sido poupado os rendimentos do capital (dividendos, juros, mais-valias),
também agora Passos Coelho anunciou para 2012 mais medidas de austeridade em
que os atingidos são outra vez os trabalhadores, os pensionistas e os
aposentados. Novamente os rendimentos de capital (dividendos, juros e
mais-valias) ficam imunes aos sacrifícios.
A
sobretaxa de IRC a aplicar às empresas com lucros elevados e o novo escalão de
IRS aos rendimentos mais elevados foi criada por este governo com o objectivo
de enganar a opinião pública. Em primeiro lugar, os valores a obter com elas
são irrisórios (menos de 100 milhões € em cada) quando comparamos com os
sacrifícios que estão a ser impostos aos trabalhadores e pensionistas. Em
segundo lugar, porque não atinge a principal fonte de enriquecimento dos
grandes patrões, que são os rendimentos de capital, ou seja, dividendos, mais-valias,
juros, etc., E estes rendimentos ou continuam isentos (a maioria), ou então
aqueles que pagam IRS (apenas uma pequena parcela) estão sujeitos a uma taxa
liberatória de 21,5% ou ainda menos que não é aumentada.
Para
os grandes patrões não são as remunerações sujeitas a IRS que, embora
gigantescas quando comparadas com as recebidas pela generalidade dos
trabalhadores, constituem a principal fonte da sua riqueza, já que elas
representam apenas uma pequeníssima parcela quando as comparamos com os
dividendos, juros, e mais-valias que são recebidas através de sociedades
gestoras de participações sociais (SGPS) ou de Fundos, ou que são transferidas
para empresas que criaram no estrangeiro, como a Amorim Energia sediada na
Holanda através da qual recebe os dividendos da GALP, e que, de acordo com a
lei fiscal portuguesa (artº 14 e 51 do Código do IRS, e artº 22º, 23º, 27º e
32º do Estatuto dos Benefícios Fiscais), todos eles estão isentas de pagamento
de impostos. Para além disso, os grandes patrões facilmente fogem ao escalão
mais elevado de IRS: Para isso, basta que reduzam a sua remuneração (até dão um
“ar” de que estão a fazer também sacrifícios) e depois recebem esse valor
através de dividendos cuja esmagadora maioria continuarão isentos
É
evidente que ao poupar novamente os rendimentos do capital, este governo, para
além de mostrar o seu espírito de classe, e que interesses defende, vai
aumentar ainda mais as desigualdades e a injustiça em Portugal, e as
dificuldades das famílias das classes médias e de baixos rendimentos
Para
que se possa ficar com uma ideia clara da dimensão desse ataque, e dos
benefícios para os patrões, vamos quantificar apenas três das medidas
anunciadas por Passos Coelho: o aumento de meia hora de trabalho por dia cuja
produção reverte integralmente para os patrões, o corte no subsidio de férias e
de Natal aos reformados e aposentados com pensões superiores a 1000€/mês e
também aos trabalhadores da Função Pública.com remunerações superiores a 1000
euros/mês.
O aumento de meia hora no horário de
trabalho diário dá por ano aos patrões mais 7.002 milhões € de riqueza
Se
dividirmos o valor do PIB previsto pelo INE para 2011 (171.320,6 milhões €)
pela população empregada (4.893.000
portugueses no 2º Trimestre de 2011 segundo o INE) obtém-se 35.013 €/
ano por empregado. Dividindo este valor pelo número médio anual de horas de
trabalho obtém 19€/PIB/por hora. Se multiplicarmos este valor pelo número médio
de dias de trabalho por ano, e depois por meia hora dia e seguidamente pelo número
de trabalhadores por conta de outrem (3.200.000 sem incluir os trabalhadores da
Função Pública) obtém-se 7.002.681.382 de euros. E ainda mais que a redução
prevista pelo governo na Taxa Social Única paga pelos patrões. É esta
gigantesca riqueza que o governo PSD/CDS pretende dar de mão - beijada aos
patrões. Tudo para os patrões, nada para
os trabalhadores produtores de riqueza: - este é o lema do governo PSD/CDS.
O governo do PSD/CDS pretende fazer mais
um corte de 1.682 milhões nos rendimentos dos pensionistas e de 952 milhões nos
trabalhadores da função pública
Em 2011, as pensões de todos os reformados e
aposentados foram congeladas. E os preços até Setembro deste ano já aumentaram
3,6%. Em 2012, o governo pretende congelar novamente a esmagadora maioria das
pensões (apenas as inferiores ao limiar da pobreza é que poderão ser
actualizadas). Como tudo isto já não fosse suficiente o governo pretende ficar
com o subsídio de férias e de Natal dos reformados e aposentados com pensões
superiores a 1000€. Em 2012, na Segurança Social estimamos que sejam atingidos
cerca de 200.000 reformados com uma pensão média ponderada que rondará os
1890€/mês, e na CGA 235.000 com uma pensão média ponderada de 1970€/mês. Dois
meses de pensão para estes 435.000 pensionistas representarão um corte nos seus
rendimentos que estimamos em 1.682 milhões euros por ano. Também é intenção do
governo ficar com o subsídio férias e de Natal dos trabalhadores da Função
Pública em 2012 com remunerações superiores a 1000€/mês. Se tal intenção se
concretizar, estes trabalhadores, que nos últimos anos, já perderem cerca de
14% no seu poder de compra sofrerão mais um corte nos seus rendimentos que
estimamos em 952,6 milhões € em 2012. Em 2011 estes trabalhadores tiveram suas
remunerações congeladas, e em 2012 e em
2013 as suas remunerações continuarão congeladas. Para além disso, os
trabalhadores da Função Pública e os pensionistas que recebem mais de 485€ e
menos de 1000€ sofrerão um aumento da taxa de IRS igual a um subsídio.
sexta-feira, outubro 14, 2011
Então e os Ricos, Pá?
Colagem sobre o discurso do
primeiro-ministro Pedro Passos Coelho na apresentação do Orçamento do Estado
para 2012
(...)
Não preciso de vos dizer que vivemos momentos da maior gravidade. Todos os
Portugueses estão a sentir nas suas vidas os efeitos de um terrível
estrangulamento financeiro da nossa economia.
- Todos os portugueses não! Então e os
ricos, pá?
(...)
O ajustamento terá de ser muito profundo. Isso implica um esforço adicional aos
objetivos já exigentes a que estávamos comprometidos para 2012. E significa que
neste orçamento que será apresentado aos Portugueses nos próximos dias teremos
de fazer um esforço redobrado de consolidação.
- Esforço redobrado de consolidação é
uma expressão muito vaga! Então e os ricos, pá?
(...)
Por tudo isto, o orçamento para 2012 é absolutamente decisivo e coincide com o
momento em que muito duramente enfrentamos a realidade. Em tempos de
emergência, o tempo é ainda mais precioso, o rigor ainda mais indispensável, a
coesão interna ainda mais necessária.
- Coesão para os beneficiários do
costume se rirem da austeridade, não! Então e os ricos, pá?
(...)
o Governo decidiu permitir a expansão do horário de trabalho no setor privado
em meia hora por dia durante os próximos dois anos, e ajustar o calendário dos
feriados.
- Trabalhar de borla não! Então e os
ricos, pá?
(...)
Estas medidas respondem diretamente à necessidade de recuperar a
competitividade da nossa economia e evitam o desemprego exponencial que a
degradação da situação das nossas empresas produziria. Este é o modo mais
eficaz e mais seguro de operar um efeito de competitividade.
- Onde é que já se viu aumentar a
jornada de trabalho para evitar o desemprego? Então e os ricos, pá?
(...)
Este Governo não se limita a pedir sacrifícios e a impor limites. Queremos
resolver os nossos problemas com mais trabalho, mais ideias, mais espírito de
entreajuda e cooperação entre todos. Este é o meio mais adequado para, no meio
de tantas restrições, ampliarmos a nossa capacidade económica de criação de
riqueza.
- A propósito de cooperação e sacrifícios,
então e os ricos, pá?
(...)
Não nos devemos permitir decisões de último recurso. Temos de salvaguardar o
emprego. É a pensar na conjugação das necessidades financeiras com a prioridade
do emprego que o orçamento para 2012 prevê a eliminação dos subsídios de férias
e de Natal para todos os vencimentos dos funcionários da Administração Pública
e das Empresas Públicas acima de 1000 euros por mês.
- Então os rendimentos de capitais não
contribuem para nada, pá?
(...)
Os vencimentos situados entre o salário mínimo e os 1000 euros serão sujeitos a
uma taxa de redução progressiva, que corresponderá em média a um só destes
subsídios. Como explicaremos em breve aos partidos políticos, aos sindicatos e
aos parceiros sociais, esta medida é temporária e vigorará apenas durante a
vigência do Programa de Assistência Económica e Financeira.
- Então as grandes fortunas não
contribuem para nada, pá?
(...)
No orçamento para 2012 haverá cortes muito substanciais nos sectores da Saúde e
da Educação. Neste aspecto, fomos até onde pudemos ir - no combate ao
desperdício, nos ganhos de eficiência.
- Não foram até onde deviam ir! Então e
os ricos, pá?
(...)
No caso do IVA, teremos de obter mais receitas do que o que estava desenhado no
Memorando de Entendimento. Para este efeito, o orçamento para 2012 reduz
consideravelmente o âmbito de bens da taxa intermédia do IVA, embora assegure a
sua manutenção para um conjunto limitado de bens cruciais para sectores de
produção nacional, como a vinicultura, a agricultura e as pescas.
- Então e os ricos, pá?
(...)
Como sabem, a redução das pensões de reforma era uma medida prevista no
Memorando de Entendimento. Tal como para os salários da Administração Pública e
das Empresas Públicas, teremos de eliminar os subsídios de férias e de Natal
para quem tem pensões superiores a 1000 euros por mês. As pensões abaixo deste
valor e acima do salário mínimo sofrerão em média a eliminação de um só destes
subsídios.
- Então e os ricos, pá?
(...)
Compreendo muito bem a frustração de todos os Portugueses que olham para trás,
para estes últimos anos, e se perguntam como foi possível acumular tantos erros
e somar tantos excessos. Tivemos tantas oportunidades para inverter o rumo e
limitámo-nos a encolher os ombros.
- Então e os ricos, pá?
(...)
Um orçamento do Estado é muito mais do que um simples exercício de
contabilidade. Nele estão vertidas escolhas políticas fundamentais. Escolhas
para o nosso presente e para o nosso futuro.
- As escolhas políticas fundamentais,
esqueceram um pormenor! Então e os ricos, pá?
(...)
Está inscrito um novo rigor no respeito pela lei e pelo Estado de Direito, pelo
princípio da responsabilidade social, o que significa que seremos implacáveis
com a evasão fiscal e agravaremos a tributação das transferências para
off-shores e paraísos fiscais.
- De promessas temos nós um saco cheio!
Então e os ricos, pá?
(...)
Temos de olhar para os exemplos recentes de países que, optando por fazer os
seus processos de ajustamento com inteligência e responsabilidade, souberam
ultrapassar as suas dificuldades bem mais rapidamente do que diziam as
previsões e abriram um período de prosperidade que seria impossível de outro
modo.
- Então e a Grécia não te diz nada, pá?
(...)
Quis nesta ocasião falar a todos os Portugueses porque mais do que nunca o
cumprimento dos objetivos nacionais, a cabal execução do orçamento para 2012, a
superação da emergência nacional depende em absoluto do contributo de todos.
- Do contributo de todos, não! Então e
os ricos, pá?
(...)
Depende da competência e liderança do Governo, da diligência e dedicação das
Administrações Públicas, da inovação e criatividade dos empresários, da
confiança e serenidade dos investidores, do profissionalismo e energia dos
trabalhadores. Depende da cooperação dos parceiros sociais, do dinamismo das
instituições da sociedade civil, do diálogo construtivo com os partidos da
oposição, em particular com o maior partido da oposição que tem nesta matéria
uma oportunidade de evidenciar um elevado sentido de responsabilidade e de
serviço ao País.
- Ah sim, então e os ricos, pá?
terça-feira, outubro 11, 2011
Registo para Memória Futura (52)
"Alguma coisa está a acontecer. O que é, não é exactamente claro, mas podemos, finalmente, estar a ver o surgimento de um movimento popular que, ao contrário do Tea Party (*), está irritado com as pessoas certas."
Comentário
do economista norte-americano Paul Krugman, galardoado com o Prémio Nobel da
Economia de 2008, sobre o movimento Occupy Wall Street, o qual, tendo-se
iniciado no centro financeiro de Nova Iorque, rapidamente se estendeu a outras
cidades dos E.U.A., tais como Boston, Chicago, Los Angeles, Portland, São
Francisco, entre outras, manifestando-se contra a ausência de repercussões
legais sobre os responsáveis e beneficiários da crise financeira nos Estados
Unidos, Europa e outras partes do mundo, e exigindo medidas contra as desigualdades
sociais, a voracidade empresarial e o sistema capitalista como um todo.
(*) Tea Party – Movimento social e político norte-americano, populista, conservador, de ultradireita, constituído em 2009 após a eleição do presidente Barack Obama. Embora seja uma miscelânea de variados grupos ultra-radicais, as suas opiniões coincidem, em linhas gerais, com as do Partido Republicano. Defende uma política fiscal conservadora e tem por objectivo contestar as principais medidas de cariz social da administração Obama, nomeadamente os pacotes de estímulo para o relançamento da economia e, fundamentalmente, o projecto de reforma do sistema de Saúde. Consideram que os Estados Unidos estão à beira de resvalar para uma experiência socialista, e sob essa pretensa ameaça, trabalham afincadamente para evitar a reeleição de Barack Obama.
segunda-feira, outubro 10, 2011
Chamar os Bois pelos Nomes
«(...)
As coisas estão neste estado porque se fizeram (e continuam a fazer) escolhas
políticas criminosas. Porque os governos são estúpidos? Não. Porque são
politicamente corruptos. Quando vemos António Borges a dirigir o Departamento
Europeu do FMI e Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu e sabemos que
os dois foram vice-presidentes da Goldman Sachs - que foi quem ganhou com a
crise do "subprime" e que ajudou a Grécia a mascarar a verdadeira
dimensão do seu défice -, percebemos de quem estamos reféns. De gente com um
currículo que deveria ser considerado cadastro.»
Excerto do artigo de opinião de Daniel
Oliveira, intitulado "Capitalismo de Candonga", e publicado no
semanário EXPRESSO de 8 de Outubro de 2011. O título do post é de minha
autoria.
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