terça-feira, maio 14, 2013

Escusamos de Ficar Descansados

Cavaco Silva diz que continua atento e vigilante. Acrescenta que tem vindo a acompanhar com muita atenção a situação do país e que está bem informado sobre o estado de saúde do Governo, venham as informações do lado do senhor Que-Se-Lixem-as-Eleições ou lado do senhor Guarda-Fronteiriço. Além disso, sempre tem vindo a dizer que Portugal não se pode permitir juntar à crise económica e social, uma crise política. Ele sabe que já tivemos seis governos de coligação, que um governo de coligação nunca é uma planície sem obstáculos, logo com um governo de coligação há que evitar a exposição pública das suas divergências, que só provocam ansiedade e desgaste. Diz acreditar que tudo está a ser feito para que os pensionistas e reformados não sejam novamente penalizados, e que o Conselho de Estado que convocou não tem nada a ver com o que se passou no último Conselho de Ministros, isto é, não tem nada a ver com o passado, nem com o presente, mas sim com o futuro.

Transcrição livre e sintética de algumas declarações de Aníbal Cavaco Silva em 14 de Maio de 2013, na entrega dos Prémios BIAL 2012, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto.

Moral da história: E "prontos", se ele diz que está atento, e nós aguentamos, se mal já estávamos, pior não ficamos.

segunda-feira, maio 13, 2013

Conselho de Estado Pró Menino e Prá Menina

SUA INEFICIÊNCIA, o inquilino de palácio de Belém, tendo tomado (provávelmente) conhecimento do meu anterior post, exclamou: "Ah é uma reunião do Conselho de Estado que querem, pois bem, ela aí vai", e convocou os conselheiros para daqui a sete (7) dias, com uma ordem de trabalhos que devia ser qualquer coisa como "Análise da Actual Conjuntura Política Perante a Crise Económica e Social", mas não, sendo mais exactamente uma espécie de lanche ou chá-das-cinco, para troca de ideias sobre as "Perspetivas da Economia Portuguesa no Pós-Troika, no Quadro de uma União Económica e Monetária Efetiva e Aprofundada", mas que também podia ser "Contributos para a Cultura do Agrião, como Factor de Crescimento de uma Agricultura Biológica Virada para o Futuro", que iria dar ao mesmo.

Diz a Constituição Portuguesa que o Conselho de Estado é um orgão consultivo da Presidência da República, destinado a pronunciar-se e aconselhar o Presidente sobre aspectos que tenham a ver com o exercício das suas funções, bem como ocorrências e factos relevantes do país e da vida política nacional, que dada a sua complexidade, requerem um parecer alargado, e não própriamente sobre assuntos de "lana caprina", que podem ser abordados em tempo e local diferente. Ora, quando se assiste a um claro (ou fingido) desentendimento, senão mesmo divergências de fundo, instaladas no seio da coligação governamental, decorrentes da implementação de taxas sobre pensões e reformas, é assaz surreal ver o Conselho ser chamado para dar palpites sobre temas desincronizados da realidade actual, como se estivessemos a viver uma rotina quotidiana ausente de problemas.

O que sobra disto tudo é uma conclusão que tem o seu quê de curioso: Sua Ineficiência, o Presidente Aníbal, deu um salto qualitativo por cima da presente crise e já está, de corpo e alma, com os olhos postos no momento "pós-troika", que só ocorrerá lá para meados de 2014, se Zeus quiser, ao mesmo tempo que continuamos a ser governados por gente muito pouco recomendável, e a ser ludibriados de uma forma perfeitamente escandalosa.

Estado do Tempo para os Lados de Belém


E SOBRE a pitoresca decisão sobre as pensões, que o Governo diz que tomou, e que o CDS-PP diz que é falsa, o que tem a dizer Sua Inexistência, o imperturbável Presidente Aníbal? Nada de nada, pois com céu limpo, vento fraco, tempo estável e temperaturas normais para a época, é natural que o Governo continue a merecer a presidencial confiança, reunindo todas as condições para continuar a gozar e a divertir-se com a inteligência e a vida dos portugueses, sendo tanta a estabilidade que nem sequer se vislumbra a necessidade ou utilidade de mandar reunir o Conselho de Estado. Além do mais, Sua Inexistência tem mais que fazer.

domingo, maio 12, 2013

A Grande Fantochada


REUNIU um conselho de ministros extraordinário, sob a ameaça de rompimento de Paulo Portas, caso a contribuição de sustentabilidade das reformas e pensões (vulgo TSU) fosse para a frente, com a Comissão Permanente do PSD em alerta vermelho, e ao fim de 3 horas o balão esvasiou, com o CDS-PP a fazer cedência nas pensões, e a garantir com isso a coligação do Governo. Aquela cedência foi feita com a condição de a medida ser entendida pela troika como uma mera e remota intenção.

Estão a perceber a coisa, não estão? A coisa é para ser aceite como uma potencial medida com que o governo concorda, mas que não é para já, para ser levada à prática. E a troika, que é o instrumento do FMI, do BCE e da UE, fica satisfeita com aquela declaração de intenções, riem-se da partida que o Governo lhes pregou, acham impagável o sentido de humor dos negociadores portugueses, aprovam a tranche, fecham a sétima avaliação, e depois vão todos tomar um duche e beber um copo.

Provávelmente o Tribunal Constitucional, se for chamado a pronunciar-se sobre a matéria (caso apareça no orçamento rectificativo como medida a implementar), não vai apreciar a coisa, e irá dizer de sua justiça. Quanto às fantochadas, com mais ou menos violações de fronteiras, com mais ou menos alertas vermelhos, e com mais ou menos ameaças do Portas, lá continuarão os seus espectáculos ao vivo. No entanto, cá por mim, sempre prefiro os fantoches a sério aos fantoches de imitação.

Terão Medo de Quê?

Cavaco Silva sempre que sai fora de portas, tem por hábito levar atrás dele uma ambulância medicalizada do INEM, para o que der e vier. Passos Coelho cada vez que faz um conselho de ministros extraordinário, liga o alarme e coloca a Comissão Permanente do PSD de prevenção.

Registo Para Memória Futura (81)

"Questões de moralidade não estão aqui envolvidas", respondeu Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) e ex-secretário geral do Partido Socialista, quando a eurodeputada Marisa Matias lhe perguntou se os lucros que estão a ser obtidos pelo BCE à custa dos programas de austeridade impostos aos países em dificuldades "não são o contrário da retórica da solidariedade".

O diálogo decorreu em Bruxelas na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários (ECON) do Parlamento Europeu. A eurodeputada da Esquerda Unitária (GUE/NGL) eleita pelo Bloco de Esquerda perguntou diretamente a Constâncio se "não acha que é imoral o BCE estar a obter lucros às custas das situações difíceis que os países estão a enfrentar"? Se não acha que se trata de "uma transferência financeira de um Estado membro em dificuldades para a generalidade dos Estados membros, o contrário da retórica da solidariedade"?

Marisa Matias lembrou, na introdução às perguntas, que os lucros do Banco Central Europeu aumentaram 300 milhões de euros em 2012 em relação a 2011 e que a instituição teve receitas de 1.100 milhões de euros na aquisição de títulos de dívida no âmbito dos programas ditos de ajuda aos países em dificuldades. Estes valores não foram contestados pelo vice-presidente do BCE.

Transcrição parcial do reporte publicado no site THE WEEK (do Grupo Parlamentar da Esquerda Unitária Europeia e Esquerda Verde Nórdica) de 27-ABR-2013

Meu comentário: Discursar sobre ética é sempre um acto de grande elevação, já aplicá-la nos negócios, sobretudo de cariz financeiro, é uma coisa sem pés nem cabeça, ou como diria a “entertainer” Tereza Guilherme, quem tem moral passa fome, com a agravante que no caso dos bancos a fome é muito especial.

sexta-feira, maio 10, 2013

Vampiros


SEMPRE que se fala no barco aparece logo quem queira embarcar, e Fernando Ulrich, presidente do BPI, não esperou pela demora, e logo produziu mais uma ulrichada. Bastou que o assunto voltasse novamente a ser falado, para que ele se pusesse logo a jeito para apoiar a possibilidade de virem a ser confiscadas as contas bancárias acima dos 100.000 euros, caso os bancos necessitem de se recapitalizar, reestruturar ou resolver outros problemas afins. Hoje fala-se de 100.000 euros, mas amanhã a fasquia pode baixar. É tudo uma questão de apetite e coragem. Imaginemos, por exemplo, que o BPI, durante o exercício de um determinado ano, em vez de lucros, apresentava prejuízos. Na óptica de Fernando Ulrich, e se o deixassem, não estava com meias medidas e aplicava uma taxa sobre os depósitos, de forma a que os resultados, de negativos passassem a positivos, o incómodo problema ficasse solucionado e os apetites saciados. Nesta ordem de ideias, será que a acumulação de crédito mal parado pode levar a que um banco tenha que se recapitalizar? Será que os custos de um banco despedir 90 funcionários e encerrar 30 agências cabem dentro do conceito de reestruração? Será que 34,6 milhões de euros de prejuízo se enquadra nos outros problemas afins que podem afectar a actividade de um banco? Se dantes depositávamos o dinheiro no banco para o proteger do bandido, agora é o mesmo que entregá-lo à guarda desse mesmo bandido, sendo que o atrevimento pode sair-nos muito caro.

Eles, os banqueiros, vampiros do sistema, comportam-se e falam assim porque têm a vida das pessoas sob sequestro, sabem que habitualmente os governos fazem tudo por eles e nada contra eles, e também já perceberam que podem ir até onde os deixarem, e o decoro é coisa que não conhecem. O paradigmático caso do BPN e as recapitalizações dos outros bancos, tudo à conta dos contribuintes, estão aí para o provar. Se uma medida destas fosse para a frente, a actividade bancária tornava-se ainda mais apetecível do que já é, quase de risco zero, um autêntico paraíso para os senhores accionistas, beneficiários dos lucros, ao passo que o inferno passava a ser alimentado pelo cliente, uma espécie de accionista de sinal contrário, ao qual se surripiava uma fatia dos seus depósitos para financiar as tais recapitalizações, reestruturações ou solucionamento de outros problemas afins. Será que ninguém manda o senhor Ulrich, para variar, ir tomar um Bloody Mary?

quinta-feira, maio 09, 2013

O Bando dos Quatro

Cavaco Silva fala pouco, mas quando fala é sempre discurso que pretende fazer doutrina. Desta vez, seguindo o exemplo de Victor Gaspar, embandeirou em arco com o "grande sucesso" da ida aos mercados, e recuperando aquela sua conhecida frase do tempo em que era primeiro-ministro de má memória - o tal "deixem-me trabalhar!" -, agora brindou-nos com uma variação sobre o mesmo tema, argumentando que "temos ainda muito, muito trabalho a fazer", isto é, enquanto ele continuar a "convergir" com uma maioria e um governo que simulam estar desavindos, há que deixar continuar a espatificar o país e a vida dos portugueses, pondo-os tão de rastos e exangues que se pode passar à fase seguinte, isto é, mudar o regime e privatizar tudo, até o próprio país.

Cavaco Silva fala pouco, mas quando fala é para pouco ou nada dizer. Não o ouvimos pronunciar-se sobre a espiral recessiva que não pára de turbinar, sobre as falências em cascata e a economia bloqueada, sobre o desemprego que galopa à desfilada, ou sobre o entusiástico apetite confiscatório do Governo, uma autêntica quadrilha de bandoleiros à solta, que vai continuando a debitar medidas em catadupa, a dizerem e contradizerem-se, fazendo de ventríloquos uns dos outros, para ludibriar os indígenas, com o objectivo de arrecadar mais umas centenas de milhões de euros, seja com a aplicação da TSU sobre as reformas, ou a alteração da fórmula de cálculo daquelas, e com efeitos retroactivos, para assim se apropriar de uma fatia dos rendimentos dos reformados.

Cavaco Silva fala pouco, mas também não é coisa que faça falta, sobretudo quando se percebe que está determinado a "trabalhar" para cumprir o destino que ele traçou para si próprio: ser o coveiro de Portugal, que entretanto vai sendo envenenado, estropiado e desmenbrado, pela troika caseira do Coelho, Portas e Gaspar, com algumas ajudas por fora, e de onde menos se esperava. Do Governo pede-se a sua demissão, e de Cavaco já há quem peça a sua renúncia, e no ponto em que estamos, direi mesmo que ambas se tornaram imperativos nacionais.

quarta-feira, maio 08, 2013

Carimbos e Lápis Azuis


A CENSURA dos tempos sombrios do Estado Novo não acabou. Está viva e continua activa, embora servindo-se de outros meios. Já não está instalada na Rua das Gáveas e entregue ao zelo dos "coronéis" que esgrimiam os carimbos e lápis azuis. Descentralizou-se, transferindo-se para dentro das próprias direcções e redações dos meios de comunicação social, elas próprias permeáveis a pressões vindas do poder e dos poderosos, e zelosos cumpridores dos estatutos editoriais. O uso e abuso do obsoleto "lápis azul" foi substituído por processos mais subtis, a que eufemisticamente se chamam opções e critérios editoriais, os quais, em diferentes graus, e valendo-se da precariedade laboral, exercem uma apertada vigilância, pressão e intimidação sobre os jornalistas, para que se auto-censurem. Por acréscimo, desinvestem ou impõem sérias limitações ao jornalismo de investigação, um género jornalístico que é caro e potencia muitas inimizades. Os próprios comentadores e colaboradores externos são escolhidos a dedo, quase todos saídos da mesma escola, e alunos dos mesmos mestres, a afinarem pelo mesmo diapasão, não reflectindo a diversidade de opiniões. E isso acentua a mediocridade, uma notória baixa na qualidade de informação que chega até nós, vendo-se desaparecer do panorama global dos meios de comunicação portugueses, pela ausência de rigor, isenção, excelência e prestígio, aquilo que era habitual encontrar e distinguia os órgãos de referência.

Voltam a ser perigosos estes tempos que vivemos. Mudam-se os métodos, mas os objectivos são os mesmos: silenciar, filtrar, condicionar e manipular a informação, com a agravante de os meios de comunicação serem propriedade de grandes grupos económicos, que tratam a informação como mercadoria, com objectivos nem sempre coincidentes com os princípios e a ética jornalística. Não é exagerado dizer-se que a democracia de um país também se avalia através da isenção e qualidade da sua comunicação social, atributos que não devem ser confundidos com a pura irreverência. Contrariando a sua natureza, passou a ser um mundo eivado de conformismo, situacionismo, e também de silêncios, e entre os profissionais, é compreensível que alguns se calem e curvem a cerviz, ao passo que outros, com sérios riscos e consequências, se empenhem em defender a liberdade de imprensa, afinal aquilo que para o jornalista é o seu mais importante e fundamental instrumento de trabalho.

sábado, maio 04, 2013

O Bem-Aventurado

ONTEM, próximo das 20 horas, curioso por ouvir a conferência de imprensa do Passos Coelho, fui até um café que tinha TV. Embora estivesse a dar um jogo de futebol e os clientes fossem poucos, chegada a hora do telejornal, o gerente sugeriu que se mudasse de canal para ouvir o Coelho anunciar - e passo a citar - "qual o tamanho da lâmina que ia usar para nos fazer a barba". Todos concordámos com a sugestão, menos um senhor já com uma certa idade, muito bem posto, embora com aspecto de ser aposentado. Disse ele, visivelmente incomodado, e sem tirar os olhos do jogo que corria na TV, que não apoiava a mudança de canal, pois até não se incomodava por aí além com o que o Coelho pudesse anunciar, pelo menos enquanto não lhe começassem a meter as mãos nos bolsos. Acho que o respeitável senhor, das quatro uma: ou não tem por hábito guardar dinheiro nos bolsos, ou não costuma contá-lo, ou é insensível aos encontrões dos carteiristas, ou então anda muitíssimo distraído!

Nota: A imagem é do jornal CORREIO DA MANHÃ de 4 de Maio de 2013

quarta-feira, maio 01, 2013

O Mistério dos "Swaps" e do DEO

A GOVERNAÇÃO de um país, não é governação não é nada, se não tiver a sua dose de mistérios, enigmas e incógnitas. Além disso, é um bom pretexto para manter ocupados os óraculos, bruxos, comentadores e opinantes.

E vem isto a propósito de o ministro Victor Gaspar ter garantido que foi o governo de José Sócrates quem autorizou a celebração dos tais "swaps", os famigerados contratos de seguro que era suposto amortecerem os impactos negativos das variações das taxas de juro dos financiamentos, mas que na sua variante especulativa, são altamente tóxicos para a saúde das empresas do sector empresarial do Estado. Mas não esperou pela demora, pois logo o PS, baseando-se no facto de Victor Gaspar ter por costume não acertar em nada, apressou-se a desmentir aquela afirmação. Foi também garantido, desta vez pela secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, que o actual governo estava inocente nesta matéria, pois desde o início do seu mandato, que não autorizou a celebração de nenhum contrato daquele tipo. Ora, eles existem, estão em vigor, vivinhos da costa, embora ninguém assuma a sua paternidade. E mais, sabe-se também que alguns deles não podem ser divulgados, dado estarem debaixo de um expedito e curioso acordo de confidencialidade. Admitindo que os "swaps" não são produtos de geração expontânea ou que não caem do céu como os meteoritos, temos aqui um mistério para desvendar. Meu Deus, quem terá sido? Assim a frio, deve ser uma pessoa muito importante. Aceitam-se sujestões sobre quem tomou a liberdade, sem pedir autorização a ninguém, para andar a intoxicar a saúde financeira daquelas empresas?

Com o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) passa-se um mistério semelhante. Diz aquele enigmático papelinho que vão ter que ser cortados 6.000 milhões de euros até 2016, só que não diz onde, embora avance com algumas pistas para nos entretermos a desbravar o matagal. Assim, 1.300 milhões serão em 2013, para compensar os atropelos detectados pelo Tribunal Constitucional, 2.800 milhões em 2014, uns compreensíveis e simbólicos 500 milhões em 2015, porque é ano de eleições e convém amaciar a austeridade, e finalmente, 1.400 milhões em 2016. Entretanto, já corre por aí uma teoria que assegura que o Governo anda a esconder os pormenores sobre quem vai ser afectado pelos cortes, a fim de que não ocorram melindres entre os portugueses, pois os que não fossem afectados, poderiam sentir-se descriminados e ofendidos na sua integridade e auto-estima, do estilo, o que é que o meu vizinho é mais do que eu, para ter direito a cortes, ao passo que eu fico a chuchar no dedo? Mas isto é só mais uma teoria, entre muitas outras. O importante agora é puxar pela cabeça, para ver quem sabe lidar com incógnitas. Assim, aceitam-se também exercícios de adivinhação sobre esta matéria dos cortes.

terça-feira, abril 30, 2013

A Cavacal Loquacidade

FICÁMOS a saber que Cavaco Silva, sempre que escreve (ou manda escrever) um discurso, é norteado por uma grande preocupação: que sejam usadas sempre as mesmas palavras, para que não se diga que hoje diz uma coisa e amanhã outra. Disse mesmo que muitos nem perceberam, por distração, que ele tinha utilizado no discurso proferido nas comemorações dos 39 anos do 25 de Abril, as mesmas palavras que tinha utilizado na mensagem de Ano Novo. Embora saiba que em duas frases distintas, se usarmos as mesmas palavras, porém com outra ordem e pontuação, o sentido delas pode ser substancialmente diferente, Sua Impertinência insiste em tomar-nos por distraídos, tolos e ignorantes.

domingo, abril 28, 2013

A Arca da Austeridade

DESDE que o Tribunal Constitucional vetou um punhado de medidas do Orçamento de Estado, que o Governo tem vindo a adiar, de Conselho em Conselho de Ministros, a divulgação das medidas alternativas que certamente tinha de reserva, para tal eventualidade. Não é crível que estivesse de mãos a abanar, à espera de um improvável veredicto milagroso, saído do Palácio Raton. Portanto, qual será a razão de andarem a sequestrar e a protelar a divulgação de tais medidas? É simples! Mesmo com a escandaloso amparo, colagem e empenhamento de Cavaco Silva, o Governo sabe que o que deitar cá para fora, vai provocar muitas faíscas e curtos-circuitos na sua coesão, e entalado como está, entre a espada e a parede, não olha a meios para furar o cerco. Só um Passos Coelho em pânico escreveria cartas a António Seguro a pedir reuniões para obter consensos, já depois de ter ouvido Seguro assegurar que já não há consenso possível. Sexta-Feira o Governo veio prometer mais um Conselho de Ministros, desta vez “extraordinário”, para a véspera do Primeiro de Maio, com a promessa de aprovação das tais medidas de excepção (se não estão já aprovadas), mas é sabido que, seja qual for a sua abrangência, não vai haver água que chegue para apagar o incêndio que irá deflagrar. Neste momento já é claro que a única solução para a queda do Governo, reside no rompimento da coligação, por parte do CDS-PP, o qual certamente já se apercebeu da erosão e dos tremendos custos eleitorais que envolve a sua permanência no Governo. Apenas faltará avaliar o que é pior. Se ficar até ao fim, tendo que assumir a sua quota-parte de responsabilidade no caos entretanto criado, com os respectivos custos eleitorais, ou abandonar a coligação, traindo-a, com a intenção de controlar os danos no seu prestígio, sabendo antecipadamente que o eleitorado nestes casos, não tem por costume pagar a traidores.

sexta-feira, abril 26, 2013

O Milagre das Acendalhas


Adaptação livre do Milagre das Rosas. Não vale saltar para o último período do texto, combinado?

CONTA A LENDA que o senhor ministro foi informado que um seu secretário andava a fazer, por portas e travessas, uns contratos muito pouco ortodoxos, senão mesmo ruinosos, e que isso poderia implicar sérias perdas para as contas públicas, e o que era mais grave, para o seu ministerial prestígio. Assim, o ministro, já muito desconfiado e com os nervos em franja, decidiu um dia surpreender o seu secretário no corredor do ministério, quando ele carregava a sua bojuda pasta, que nunca se separava nem deixava esquecida sob pretexto algum, e muito menos aberta, sujeita a olhares curiosos. À vista dele, e pensando que o ia apanhar em flagrante com material incriminatório, reparou que o secretário procurava esquivar-se ao encontro - o que era bom sinal -, mas tal não sucedeu. Ao cruzarem-se, foi então que o ministro perguntou: "Ora viva, o que levais aí nessa obesa pasta, senhor secretário, pode-se saber?". Ruborizado e cheio de suores frios, o secretário balbuciou a medo: "Nada de especial, senhor ministro, apenas papelada sem interesse, velharias já fora de prazo para ajudar a atiçar a lareira, isto é, acendalhas", ao que o ministro – farto de saber que os ministros e secretários têm por hábito mentir - ripostou: "Ah sim, papelada para atiçar a lareira no pino do Verão? Mostrai-me lá então, pois estou curioso". Perante o olhar incrédulo dos outros funcionários que passavam e paravam para assistir, o ministro encostou o secretário à parede e ordenou, colérico e com voz de trovão: "Abri já a pasta, seu vilão sacripanta, senão demito-o", ao que o outro respondeu, agora já todo empertigado: "Não é preciso, excelência, quem se demite sou eu!. E empurrando o ministro, deixou cair a pasta para o chão, e desandou direitinho para a saída, sem se dignar olhar para trás. Serenados os ânimos, cheio de curiosidade e a lamber os beiços, saboreando antecipadamente o petisco, o ministro pegou na pasta e logo ali a abriu, perante os olhos estupefactos dos circunstantes, que se debruçavam para contemplarem o seu recheio, coisa que até dava jeito – pensava ele - pois até podiam testemunhar a justa causa da exoneração do secretário. E o que viu deixou-o à beira de um ataque cardíaco: "Ora esta, isto acendalhas?", berrou ele, vendo a sua glória dissipar-se como por encanto. É que dentro da pasta estava muito bem arrumadinha, uma carrada de exemplares do último "Programa de Governo do PSD", dos muitos milhares que tinham ficado por distribuir.

quinta-feira, abril 25, 2013

Sinais Eloquentes

NÃO QUERIA debruçar-me hoje sobre este tema, mas a minha fúria e desprezo a isso obrigam. Tudo porque hoje, na sessão comemorativa do 25 de Abril, ocorrida na Assembleia da República, quase à porta fechada, viu-se o quão profunda é a crise política que nos afecta, o abismo que separa os governantes dos portugueses e dos reais problemas do país, desde a insofismável sintonia a que se assistiu, entre o governo, a maioria parlamentar que o apoia, e o "seu" presidente, convictamente plasmada nos feéricos aplausos que aquele recolheu, até à debandada dos ministros e de muitos deputados, que fogem dos acordes da "Grândola" como os diabos fogem da cruz.

Do discurso de Cavaco Silva, todo ele coerentemente sintonizado com o rumo político escolhido pelo actual governo, apenas se pode tirar uma conclusão: Sua Inconsistência, que deveria ater-se ao seu tão propalado culto de uma magistratura de influência, provou não passar de um farsante, que nos momentos mais críticos faz questão de não disfarçar o seu comprometimento (embora já tenha dado sinais contrários) com as políticas rapaces que o governo tem andado a fazer, em termos de austeridade, galopante recessão económica e empobrecimento generalizado do país. Tal como o teste do algodão não engana, devido à sua natureza dúplice e enganadora, já há muito que tinha deixado de levar a sério Cavaco Silva. Mas agora ele excedeu-se. O presidente da República que se arrogava de ser um mediador e gerador de consensos, definitivamente, não estava lá. Quem lá estava era um desinibido correligionário do PSD, travestido de ocasional vice-primeiro ministro, com residência oficial em Belém, e o PS, mau grado as cautelas e caldos de galinha, deve ter ficado com uma ideia clara do que dali pode contar. Os sinais são eloquentes e não enganam. Trazer a indignação, a contestação e o protesto para a rua, parece ser o único caminho que resta aos portugueses.

Hoje é o DIA


HOJE é o tal DIA que despertou assim, lá pelas seis e tal da manhã, asfixiado por aquilo que não desejamos, cercado por tudo o que não merecemos. Ontem (há 39 anos) foi o tal DIA robusto e cheio, empurrado por uma longa madrugada de dentes cerrados, que derrotou tantas noites de insónia e pesadelo. Amanhã, lá para o futuro, pelas mesmas seis e tal da manhã, outros DIAS virão, claros e fecundos, que sorrirão ao nobre povo desta ocidental praia, sentinela de outros Abris que florirão.

quarta-feira, abril 24, 2013

O Milagre dos "Swaps"

Os "swaps" são contratos de seguro destinados a evitar os impactos negativos dos financiamentos com base na taxa variável da Euribor, isto é, se a taxa desce o beneficiado é o Banco e a prejudicada é a Empresa, ao passo se a taxa sobe, invertem-se os papéis. Visto assim de forma simples, a contratação de tais produtos, embora pareça um jogo de azar, não é ilegal nem indesejável, caso se limite a garantir a protecção dos financiamentos. Ora o que acontece é que tudo aponta para a existência de contratos que nos pormenores (sempre eles), excedem tudo o que atrás se disse, assumindo “estruturas altamente especulativas”. Esta situação já está sob investigação da Procuradoria Geral da República, havendo quem avance potenciais prejuízos nas empresas públicas, superiores a 3.000 milhões de euros, e deixando três secretários de estado - dois deles recentemente remodelados, Juvenal Silva Peneda e Paulo Braga Lino -, debaixo de suspeita, por no passado terem recorrido, como gestores públicos, ao expediente dos "milagreiros swaps". Entretanto, é quase garantido que ministros, secretários de estado e administradores daquelas empresas, que se têm revezado no promíscuo vai-vem entre governos e empresas, venham agora dizer, conforme é habitual, que não conheciam os pormenores (sempre os pormenores) dos contratos, ou então que tudo lhes passou ao lado e que não sabiam de nada, persistindo a velha questão dos maus hábitos, que andam sempre associados ao carroussel dos gestores que viram governantes, e dos governantes que viram gestores, contaminando de más e duvidosas práticas, tudo por onde passam.

Por isso, a pergunta que qualquer cidadão bem intencionado deve fazer, não andará muito longe disto: Se o governo anda tão empenhado em revirar o bolso dos portugueses, e a desbastar até ao osso as funções sociais do Estado, para desencantar 4.000 milhões de euros, não custa acreditar que o seu inconfessável objectivo era o de camuflar o grande buraco originado pelo "milagre" dos "swaps", afinal uma variante do prodigioso "milagre" BPN, que alguns poucos bolsos encheu, com a contrapartida de ter levado o país à penúria.

terça-feira, abril 23, 2013

Intrujices

FICOU assegurada a irrelevância de algumas secretarias de estado do Governo PSD/CDS-PP, quando se deu o episódio Franquelim Alves, continuada agora com o caso do secretário de estado Almeida Henriques que pediu para sair e não vai ser substituído, pois vai-se desligando aos bochechos, ao longo de dois meses, para as suas funções irem sendo distribuídas pelos outros colegas do governo. Mas não ficamos por aqui. Aconteceu agora uma grande inovação! Contrariando o que é habitual, não é o Coelho que salta da cartola, mas sim o Coelho que de lá vai tirando um simulacro de remodelação, uma espécie de ansiolítico para consumo da troika. Esta recente remodelação de secretários de estado prima pela originalidade. Tem tudo de uma revisão baratucha, feita numa oficina de barracão, a esmo e aos tropeções, para manter a máquina a fingir que anda, criando a ilusão de que o Governo está em grande forma, seguro do que faz, com grandes trabalhos e desafios pela frente.

Entretanto, o patético Cavaco Silva, colaborando na intrujice, lá vai continuando a convergir para as tomadas de posse, distribuindo palavras de estímulo, piropos e bacalhauzadas, pelos figurantes deste desgoverno, que fazendo de conta que governa, continua a emprenhar o país de miséria.

domingo, abril 21, 2013

A Profecia

O PRESIDENTE do Eurogrupo, um tal Jeroen Dijsselbloem - aquele relvático figurão que tinha no seu currículo um inexistente mestrado em Economia Empresaria da University College Cork (UCC), instituição que nunca ministrou tal curso -, admitiu nos encontros do FMI e do Banco Mundial, que Portugal possa vir a ter mais tempo para cumprir as exigências da troika, bem como beneficiar de um novo objectivo do défice de 5,5,% para este ano, de 4% para 2014, e só em 2015 é que o défice deverá cair abaixo dos 3%, ficando nos 2,5% do PIB. Victor Gaspar, depois desta profética visão do falsário de serviço, exibiu um pateta sorriso de contentamento e debitou declarações a condizer. Só lhe faltou dançar em frenético rodopio.

quinta-feira, abril 18, 2013

Jogos Florais da Primavera

JÁ TINHA havido um sinal de que ia começar a haver um jogo de escondidas, quando os sindicatos e as associações patronais sairam do Conselho de Concertação Social, dizendo, tanto trabalhadores como patrões, que a reunião não serviu para nada. Não foram informados de nada, e sobre nada lhes pediram sugestões ou opiniões. Logo a seguir Passos Coelho pediu uma reunião com Seguro, iniciativa que tudo indica ter sido exigida pela Troika. Seguro, farto do saber que não é com vinagre que se apanham moscas, aceitou o "desafio", para afirmar, após as reuniões com o Coelho e com a Troika, que “no essencial não houve nada de novo”, mas parece que não foi bem assim. Tudo indica que a Troika exigiu a Coelho que procurasse pontos de entendimento com o PS, e não é para bater claras em castelo e deixar ficar tudo na mesma que uma reunião em São Bento se arrasta durante uma hora e meia. A única coisa que me vem à ideia é que (in)Seguro se deixou entalar, sabendo-se como é muito difícil negociar sob constrangimento, a menos que seja para aceitar a rendição.

Das reuniões nada transpirou, e depois seguiu-se uma maratona de Conselho de Ministros que começou às 15 horas de ontem, tendo entrado pela noite dentro, da qual deveriam sair os cortes alternativos, às medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional. Porém, na conferência de imprensa das 9 da manhã de hoje, tirando a informação de que os Estaleiros de Viana do Castelo não serão privatizados, a montanha pariu um rato, dando a ideia de que os ministros passaram o tempo todo a saltar ao eixo ou a brincar à cabra-cega. A conferência foi atabalhoada, repleta de ideias vagas, não tendo sido anunciadas medidas concretas, apenas uma nuvem de intenções que ficam dependentes do "redesenho" dos "programas", que constarão de um orçamento rectificativo que, porque demasiado complexo e abrangente, só estará disponível lá para meados de Maio. Tudo isto me cheira a esturro (o PCP chama-lhe encenação), sabendo antecipadamente que, quando se trata de extorquir, os alvos preferenciais do Governo são sempre os mesmos. Por detrás desta mão-cheia de nada, suspeito que se está a confeccionar uma açorda de medidas muito complicada, que o Governo tem receio de divulgar em conjunto, preferindo vertê-las para a opinião pública a conta-gotas.

Entretanto, vamos ficando com as ideias avulsas do Gaspar querer "redesenhar" o subsídio de desemprego, com a ideia do Coelho querer multíssimas rescisões amigáveis, mais uma tabela salarial única para a administração pública, sem dar pormenores, e a ideia do troglodita Fernando Ulrich, o homem que diz que os portugueses estão cá para aguentar, de criação de um salário mínimo "recomendável", seja lá o que isso quer dizer, muito embora se desconfie que o que ele quer é uma sociedade do tempo da pedra lascada, com os mercados e estruturas financeiras do século XXI. Para amaciar o caldo temos Sua Ineficiência Sereníssima, o professor Cavaco, a afirmar que não anda a viajar pelas Américas, mas sim a trabalhar, empenhado no desejo de promover negócios e abrir Portugal a outros potenciais mercados. Enfim, jogos florais da Primavera.